Guilherme Marques

Mais que opiniões, conteúdo embasado.

Written by: on 3 de setembro de 2012 @ 14:26

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Todas as sextas e sábados, e às vezes até em outros dias da semana, me surpreendo ao notar que eu, uma pessoa calma e ponderada, estou tendo os mais agressivos pensamentos…Ocorre que a rua em que moro é lotada de bares e casas noturnas e, apesar dos bares em si não serem tão próximos, a rua fica cheia de carros com gente indo ou voltando desses locais. E quando o trânsito para, o barulho é infernal. São buzinas, motores e sons automotivos que literalmente fazem tremer o prédio em que moro.

Quando eu morava sozinho, o incômodo era menor, mas agora, com um filho de 8 meses de idade, fica difícil ignorar o desrespeito que os motoristas daqueles carros têm com o sono alheio. Já passaram pela minha cabeça várias soluções, como:

  • descer, bater no vidro de cada carro e solicitar gentilmente que abaixe o volume do som pois meu filho quer e precisa dormir. Não daria certo com motoristas bêbados, que adoram uma briga de trânsito e que não dão a mínima para os direitos alheios…
  • chamar a polícia para que faça alguma coisa. Já chamei, por duas vezes e nenhuma delas adiantou… Na primeira, o policial que atendeu disse que havia ocorrências mais importantes que a minha e que não enviaria um carro sequer. Na segunda, pelo menos, a policial foi bem mais educada, dizendo que entendia e que iria tentar fazer algo…
  • jogar ovos nos carros. Apesar dessa ser uma idéia que me atraiu muito de início, duvido que minha pontaria seja tão boa a ponto de acertar o carro certo…
  • talvez uma espingarda de pressão? Não, por incrível que pareça eu ainda penso nos direitos dos outros…

Voltando ao assunto, há leis que, se respeitadas, evitariam meus mais criminosos pensamentos. É o caso do Código de Trânsito Brasileiro, a Lei 9503 de 23/09/1997:

 “Art. 41. O condutor de veículo só poderá fazer uso de buzina, desde que em toque breve, nas seguintes situações:

I – para fazer as advertências necessárias a fim de evitar acidentes;

II – fora das áreas urbanas, quando for conveniente advertir a um condutor que se tem o propósito de ultrapassá-lo.

Art. 227. Usar buzina:

I – em situação que não a de simples toque breve como advertência ao pedestre ou a condutores de outros veículos;

II – prolongada e sucessivamente a qualquer pretexto;

III – entre as vinte e duas e as seis horas;

IV – em locais e horários proibidos pela sinalização;

V – em desacordo com os padrões e freqüências estabelecidas pelo CONTRAN:

Infração – leve;  Penalidade – multa.

Art. 228. Usar no veículo equipamento com som em volume ou freqüência que não sejam autorizados pelo CONTRAN:

Infração – grave;  Penalidade – multa;  Medida administrativa – retenção do veículo para regularização.”

Buzinar é proibido entre as 22:00 e as 06:00! É exatamente nesse horário que eles mais buzinam! Onde estão as multas?

E sobre os sons automotivos, o CONTRAN, citado acima, estabelece em sua Resolução 206 de 20/10/2006 o volume e a freqüência dos sons produzidos por equipamentos utilizados em veículos e estabelece metodologia para medição a ser adotada pelas autoridades de trânsito ou seus agentes, a que se refere o art. 228 do Código de Trânsito Brasileiro – CTB. Esse volume máximo é de 74 dB(A) a 14 metros de distância do veículo. Ainda não medi a intensidade sonora aqui, mas tenho certeza de que os atuais sons ultrapassam em muito esse limite!

Não sonho com um lugar em que os sons mais potentes que o limite do CONTRAN não sejam nem comercializados ou instalados, o que gostaria de ver é o uso consciente de tais aparelhagens.  Aí chegamos ao ponto que me causa indignação.

Estamos cercados de gente quer ver seus direitos respeitados, mas não respeita os direitos alheios. É a velha mania de levar vantagem sempre, de se divertir ao receber o troco a mais na padaria, sem pensar que quem errou pagará por isso. De se orgulhar de ter empurrado um produto com defeito para alguém que “nem notou” e por aí vai…

Uma das causas dessa lei do mais esperto é a certeza da impunidade. Se as multas e retenções de veículos citados na resolução do CONTRAN fossem realmente aplicadas, não seria divertido buzinar ou ligar o som no máximo volume as três da manhã. Da mesmíssima forma, seria candidato a um cargo político aquele que quisesse fazer algo pela população, não por si próprio.

Lembro-me de uma situação que presenciei em Amsterdã, quando uma noite, em um local com pouca gente na rua, um senhor, visivelmente embriagado e bravo com alguma coisa, jogou uma garrafa que trazia em um saco de papel no chão, estilhaçando-a. Em menos de um minuto, chegaram três policiais para conversar com o sujeito. Isso mesmo, eu disse conversar, não agredir ou prender. Ele continuava alterado, gritando. E os policiais, na maior calma, falando baixo com ele. Com isso, ele foi baixando a voz, um policial apontou para os cacos da garrafa, eles conversaram mais um pouco e saíram. O senhor, então, juntou os cacos e jogou em uma lixeira próxima. Por quê? Pela certeza de que seria punido caso não o fizesse…

A certeza ou pelo menos a expectativa de punição funciona muito bem na maioria dos casos. Ou será que um ladrão de carros arrombaria um veículo se tivesse em mente que provavelmente seria detido em seguida? Será que um assassino agiria se soubesse que seria capturado? Será que um empreiteiro corrupto ofereceria suborno a um agente público que certamente iria denunciá-lo?

Pois é, infelizmente hoje, no Brasil, temos a quase certeza de impunidade para praticamente todos os delitos, pequenos e grandes, como jogar lixo no chão ou desviar milhões dos cofres públicos…

Mas, na minha opinião, o problema começa bem mais cedo, na educação familiar. Uma criança que cresce vendo os pais se gabando de ter levado vantagem em alguma situação ao passar alguém para trás, não cria uma qualidade que considero essencial: o orgulho de ser honesto.

Tive a sorte de ser criado em um ambiente sadio, onde o justo prevalecia e os exemplos de honestidade eram exaltados. Isso moldou minha personalidade e possibilitou que eu chegasse onde estou. Hoje quem me conhece espera de mim atitudes corretas e busco com todas as minhas forças não decepcioná-los.

Tendo sido professor por mais de 15 anos, vivenciei em diferentes escolas atmosferas distintas em termos de comportamento coletivo. Em uma delas, era “bonito ser feio”, como eu costumava afirmar. Era o mais popular da turma aquele que não estudava, colava nas provas sem ser apanhado, ridicularizava os colegas com menos posses e assim por diante. Infelizmente, nessa escola, o mau comportamento prevalecia e para serem aceitos pelos demais os alunos entravam no jogo ou fingiam que não se importavam com a situação.

Já em outra escola, o clima geral era de cooperação. Havia menos indisciplina e mais participação. Um aluno que falasse mal da escola ou que fizesse algo reprovável era imediatamente excluído do grupo, sendo obrigado a se retratar e assumir os erros caso quisesse o respeito dos colegas. Esse lugar era fantástico de se trabalhar e as boas atitudes contaminavam os demais.

Penso que os meios de comunicação, o maior poder que conheço, capaz de eleger ou afastar presidentes conforme seus interesses, poderiam iniciar uma transformação na cultura do brasileiro, exaltando os bons atos e condenando veementemente os que se afastassem da conduta correta. Talvez fosse necessário elaborar um minucioso plano de ação, como os que se fazem com tanto sucesso nas campanhas eleitorais, para a gradativa e eficaz alteração da regra do “ser esperto” para o “ser correto”.

Mas será que interessa ter um povo mais consciente e honesto? Será que há a vontade de melhorar a educação neste país? Será que interessa, a quem tem poder para tomar decisões, tornar o povo mais crítico em relação à corrupção?

Pois é, talvez o problema das buzinas e sons automotivos seja somente um reflexo de toda uma cultura deteriorada na qual vivemos, infelizmente.

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Catogories: Indignação, Legislação

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