Guilherme Marques

Mais que opiniões, conteúdo embasado.

Written by: on 31 de agosto de 2012 @ 23:41

Dentre todas as formas de investimento, a bolsa de valores continua sendo a mais atraente e, ao mesmo tempo, a mais temida.
Muitos ouvem histórias de pessoas que lucraram na bolsa, em apenas alguns anos, o que outros levam a vida toda para conseguir com investimentos em renda fixa. Animados, depositam suas esperanças (e todas as suas economias) em ações de companhias fortes, que nunca poderiam perder seu valor. Mas de uma hora para outra, uma notícia vinda do exterior faz com que todas as ações, incluindo a sua, percam até 60% do seu valor. Desanimado, o “investidor” saca o que lhe restou e jura que nunca mais irá perder dinheiro dessa forma, acreditando no que lhe disse aquele amigo (que a esta altura já deixou de ser amigo)…
Esse é o perfeito exemplo do que não se deve fazer jamais em investimentos de risco: comprar em alta e vender em baixa. E por incrível que pareça, é o que a grande maioria dos investidores “novatos” fazem, quando resolvem comprar ações, dólares, fundos de investimento arrojados e outras formas de tentar ver seu dinheiro crescer rapidamente.
Mas há alguns conhecimentos que podem auxiliar os investidores menos experientes na escolha da hora certa de comprar e vender.
Para saber mais, leia o artigo abaixo que escrevi em 2008 e atualizei agora em agosto de 2012 pois estamos em um momento especial para mudança de investimentos.

A HORA CERTA DE MUDAR DE INVESTIMENTO

– É possível ganhar dinheiro de forma consistente aplicando em ações e em fundos atrelados ao dólar?

– Como posso saber o momento certo de comprar e vender?

INTRODUÇÃO

Este artigo tem por objetivo compartilhar algumas técnicas que desenvolvi e outras que estudei de forma autodidata durante vários anos como investidor.

Não sou consultor financeiro e jamais investi dinheiro que não fosse meu, nem pretendo iniciar essa carreira agora. Sou engenheiro civil, cursei também matemática, fui professor por vários anos e hoje me dedico integralmente à engenharia.

Cito essas informações porque não posso, de forma alguma, me responsabilizar por eventuais perdas que a aplicação das técnicas descritas nesse artigo possa provocar, mesmo porque, seguindo-as eu mesmo, também terei prejuízo se tais preceitos falharem.

Na verdade, ações e fundos cambiais não são chamados de investimentos de risco por acaso. É verdade que neles, os leigos perdem muito mais dinheiro do que ganham, mas é também verdade que, seguindo as regras que descreverei, consegui aumentar bastante o retorno sobre os meus investimentos.

Concluídos esses esclarecimentos, vamos a alguns dados interessantes.

O ÍNDICE IBOVESPA

A Bolsa de Valores de São Paulo – BOVESPA foi fundada em 23 de agosto de 1890. Em 02 de janeiro de 1968, foi criado o índice IBOVESPA, que retrata de forma muito inteligente o valor das principais ações negociadas na BOVESPA.

Sua metodologia de cálculo nunca sofreu modificações, o que nos ajuda bastante na análise de tendências e na compararação de valores desse índice em diferentes períodos. Os únicos ajustes que foram feitos, com o objetivo meramente de manter o IBOVESPA abaixo dos 100.000 pontos, foram algumas divisões por 10 e por 100. Nesse artigo, trabalharemos com índices ajustados de forma a tornar o gráfico contínuo.

Vejamos um gráfico que mostra a evolução do IBOVESPA abril de 1993 até outubro de 2008.

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Fonte: BM&F BOVESPA. Disponível em: http://www.bovespa.com.br/Principal.asp. Acesso em: 22/10/2008.

Em um primeiro momento, chama atenção a aparente irregularidade, cheia de altos e baixos. Também impressiona a forte queda no final, provocada inicialmente pela crise imobiliária nos Estados Unidos, e depois magnificada pelo receio dos investidores frente a uma possível recessão global.

Mas será que com esses dados podemos fazer alguma previsão sobre o comportamento do índice IBOVESPA no futuro?

Certamente, quanto mais informação temos sobre um fenômeno, maior nossa capacidade de entender o seu provável comportamento futuro. É claro que, em se tratando de negócios que envolvem o mundo todo, com sua imensa complexidade, não estou propondo “adivinhar” o que acontecerá daqui a um mês ou dois. O que quero mostrar é que, apesar do aparente comportamento caótico da curva mostrada, há uma tendência que podemos tentar enxergar.

De início, devemos procurar um tipo de curva que melhor se ajuste ao padrão observado. Há muitas possibilidades de comportamento, como linear, exponencial, logarítmico, polinomial, dentre outros. Mas, pelo formato e pelo tipo de operações que são realizadas na bolsa, sua evolução apresenta uma forte tendência exponencial. Veja o gráfico para entender melhor.

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O ajuste parece bom, mas algumas vezes os dados de origem prática escondem certos perigos. É preciso analisar melhor as informações que temos, para não corrermos o risco de apostar na direção errada.

Um artifício matemático muito utilizado na análise de curvas com tendência exponencial é usar um eixo com escala logarítmica, transformando uma curva exponencial em uma linha reta. Vejamos se haverá alguma surpresa nisso.

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Você notará, certamente, que o gráfico não parece ser formado de uma reta apenas, mas de duas! O que aconteceu no final de junho de 1994 que alterou de forma tão significativa o comportamento do índice?

Pois é, no dia 30 de junho de 1994 foi implantado o Plano Real, um passo importante em direção à estabilidade econômica que temos hoje. Mas, infelizmente, para controlar a hiperinflação, o plano provocou uma desaceleração do consumo e, conseqüentemente, reduziu o crescimento do nosso país.

É incrível como fica clara essa desaceleração, pela repentina diminuição do ângulo que a curva faz com a horizontal. Essa inclinação, em última análise, mostra como está o crescimento do país.

Devemos, então, para evitar os dados “contaminados” por um período totalmente diferente do atual, limitar nossa análise ao período pós-plano. E cabe mais uma precaução: imediatamente após a implantação do Plano Real, o mercado financeiro viveu um período de turbulência, até se adaptar ao novo sistema econômico e à redução da inflação. Nas próximas análises tomaremos, portanto, o período de 30/06/1995 aos dias atuais, desprezando os dados não confiáveis do primeiro ano de vigência do plano.

Mesmo assim, temos mais de 13 anos de altos e baixos da economia brasileira para apoiar as nossas conclusões.

Vejamos como fica o gráfico com dados mais confiáveis.

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Agora sim! Nesse gráfico, com eixo y em escala logarítmica, podemos notar que o crescimento do índice IBOVESPA mantém uma inclinação praticamente constante ao longo dos anos, apesar de todas as crises e momentos de euforia da bolsa.

Nele podemos traçar uma linha de tendência, que será uma reta, e analisar em que períodos o gráfico esteve acima ou abaixo do valor esperado.

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Observando cuidadosamente os picos e depressões do gráfico, podemos notar o impacto da crise asiática no final de 1997, da crise russa em meados de 1998, o pessimismo com a não aprovação da taxação dos servidores inativos pelo congresso no final de 1998, que levou o governo FHC a abandonar o sistema de bandas cambiais (voltaremos a falar nisso mais adiante, quando discutirmos a variação da cotação do dólar ao longo desses mesmos anos). O início do câmbio livre faz o real perder cerca de 40% do seu valor frente ao dólar em apenas 2 meses, aumentando muito o risco país, resultando numa das mais intensas crises vividas no plano Real. Nesse período conturbado, enquanto o Brasil ainda se recuperava, vieram o estouro da bolha especulativa das empresas de tecnologia em abril de 2000 e os ataques terroristas contra os Estados Unidos em setembro de 2001.

Depois de alternâncias entre otimismo e pessimismo no mercado, voltou a crescer o risco país com o chamado “efeito Lula”, devido à já previsível eleição do novo presidente. Essa crise, bem como a falsificação da contabilidade da empresa americana Enron e a fraude do grupo de telecomunicações Wordcom desestabilizaram novamente a bolsa de valores.

Segue um período de constantes altas na bolsa de valores, interrompidas em alguns momentos pelos atentados em Madri em 2004, o terrível tsunami em dezembro do mesmo ano, a crise da China em 2007, dentre outros.

Em 2008, estamos vivendo novamente uma forte queda das bolsas, que em maio de 2008 registravam uma enorme alta acumulada. O IBOVESPA, que chegou a ultrapassar os 73.000 pontos, no final de outubro está cotado em menos de 30.000, uma queda próxima a 60% em pouco mais de 5 meses.

A boa notícia é que, como vimos, essas crises passam. Podem durar meses ou até alguns anos, mas o mercado se recupera e volta a crescer. Quando isso acontece, quem comprou ações a um preço baixo acaba tendo enormes lucros.

Mas existe algum investimento capaz de dar lucro ao investidor quando o mercado de ações está caindo? É o que veremos a seguir.

O DÓLAR

Analisaremos o comportamento do dólar frente ao real, pois nossos investimentos podem ser beneficiados se percebermos um comportamento bastante comum: quando a bolsa cai, o dólar sobe e vice-versa. Nem sempre isso ocorre a curto prazo, pois há outras variáveis envolvidas como as intervenções do governo, que compra e vende dólares no mercado para amenizar as variações, mas em geral a regra é verificada.

Analisemos o gráfico a seguir, que mostra a variação do valor da moeda americana nos últimos 14 anos.

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Fonte: YAHOO FINANÇAS. Disponível em: http://br.finance.yahoo.com/. Acesso em: 28/10/2008.

Aqui também, como fizemos com o índice IBOVESPA, para que tenhamos dados confiáveis na tentativa de prever o comportamento futuro do dólar, devemos procurar regiões discrepantes.

Claramente, algo aconteceu no início de 1999 que fez com que o dólar subisse muito rapidamente, passando de um comportamento regular, quase linear, para um padrão mais parecido com o que observamos nos dados do IBOVESPA, com picos e depressões.

Mas o que ocasionou essa mudança repentina? No início do Plano Real, em 01/07/1994, o valor de um Real foi convencionado como sendo exatamente igual a um Dólar. A partir daí, houve uma livre flutuação do câmbio, até que em 1995 o governo decidiu controlar o seu valor pelo sistema de bandas cambiais, que estipulava limites máximos e mínimos para o dólar. As bandas cambiais foram sendo ajustadas ao longo do tempo, promovendo um aumento gradual do dólar até janeiro de 1999, quando esse regime artificial de controle do valor da moeda fracassou. A partir daí, depois de uma forte desvalorização do real frente ao dólar, o cambio se ajustou e passou a refletir a realizade do mercado.

Podemos, então, considerar que os dados “confiáveis” sobre a cotação do dólar em relação ao real estão disponíveis desde o início de fevereiro de 1999, depois que cessou a turbulência causada pela eliminação do sistema de bandas cambiais.

Vejamos o gráfico da cotação do dólar nesse período.

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Repare que, ao contrário do comportamento do índice IBOVESPA, o valor do dólar não parece ter uma tendência exponencial. Realmente, nesse sentido, o câmbio não é um “investimento” como as ações, mas um indicativo da valorização de uma moeda e relação a outra.

É verdade que existem fundos de investimentos baseados no valor do dólar, mas esses fundos são antes uma proteção para quem tem dívidas no exterior do que uma aplicação com finalidade de promover lucros.

Logo, se dois países têm crescimento do PIB aproximadamente igual e políticas cambiais semelhantes, pode-se esperar que o valor de uma moeda frente à outra não sofra grandes variações, isso é, ao longo do tempo, apesar das inevitáveis flutuações momentâneas, haverá um ponto de equilíbrio ao redor do qual as cotações permanecerão praticamente estáveis.

Em outras palavras, o crescimento esperado do valor do dólar é linear, e não exponencial.

Vejamos uma linha de tendência traçada no gráfico anterior.

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Conforme esperávamos, o comportamento do dólar apresenta picos e depressões, mas segue variando em torno de uma linha de tendência praticamente horizontal, ao redor dos R$ 2,28, atualmente. Portanto, quanto mais o dólar estiver acima desse valor, mais ele tenderá a cair e vice-versa. É importante, porém, ir atualizando os dados, para que se possa encontrar o valor esperado para a cotação da moeda americana no momento desejado.

Mas antes havíamos citado uma regra que propunha que, na maioria das vezes, quando a bolsa sobe o dólar cai e, da mesma forma, quando a bolsa diminui sua cotação o dólar tende a subir. Vamos analisar um pouco o funcionamento do mercado para ver por que isso acontece.

Em primeiro lugar, precisamos entender que há muitos investidores estrangeiros na bolsa de São Paulo, o que é bom, pois eles trazem seus dólares para o Brasil e apostam no crescimento das nossas empresas.

Por outro lado, esses investidores são os primeiros a retirar seu capital do Brasil quando há uma expectativa de crise. Nesse caso, a preferência é dada para países mais “sólidos” como Japão ou Estados Unidos.

Dessa forma, quando tudo vai bem, existe uma grande entrada de dólares de investimento externo, as ações são valorizadas pois há bastante gente querendo comprar e o dólar cai, porque há muitos recursos recém-chegados ao Brasil. Note que quando um produto ou uma moeda estão disponíveis em grande quantidade, seu valor diminui.

Quando há algum problema que possa gerar instabilidade no mercado de ações, o risco de se investir em países em desenvolvimento aumenta e os investidores vendem muitas de suas ações aqui para investir em mercados mais seguros no exterior, mesmo que esses não ofereçam lucros tão elevados. Para levar o seu dinheiro para outros países, os investidores vendem suas ações em Real, compram Dólar e tiram o dinheiro do país. Assim, faltam dólares no mercado e seu valor sobe, além de haver um excesso de ações brasileiras, que faz com que seu valor caia.

De forma geral e bastante simplificada, esse é o mecanismo que faz com que dólar e bolsa se comportem de forma inversa. Mas nem tudo é tão simples, pois o governo tem um papel fundamental na manutenção da estabilidade do câmbio. Para o país, não é bom que o valor do dólar suba ou desça demais em pouco tempo, o que pode provocar um descontrole no valor das exportações e importações e uma forte alteração no consumo interno de bens e serviços, resultando em aumento da inflação ou causando recessão.

Assim, o governo tenta amenizar as variações do câmbio, vendendo dólares quando a sua cotação sobe muito, principalmente em períodos de queda das bolsas e comprando-os quando seu valor cai, em tempos de alta das ações.

Essa influência do governo sobre o valor do dólar não pode ser desprezada e devemos ter cuidado ao avaliar o preço do dólar e sua tendência de alta ou queda, pois ele pode estar sendo mantido em níveis diferentes do que estaria se não houvesse tal controle, não mais representando a realidade do mercado. Novamente, se usarmos dados “viciados”, podemos ter surpresas em nossas previsões.

DÓLAR x BOLSA

Para avaliar o comportamento oposto que têm as cotações das ações nas bolsas de valores e o valor do Dólar frente ao Real, vamos agrupar os dados relevantes dos dois em um mesmo gráfico.

Para poder representar conjuntamente números tão diferentes, tomaremos o valor da cotação do dólar e o índice IBOVESPA divididos pela média dos dados no período considerado. Assim, a ordenada 2 para o dólar, por exemplo, significa que o dólar estava valendo duas vezes mais que a média da cotação dessa moeda no período entre fevereiro de 99 e outubro de 2008.

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Note que, em termos gerais, quando a bolsa está subindo, o dólar vai perdendo valor e que uma crise que afete a bolsa normalmente provoca um aumento da cotação do dólar.

Mas será que uma pessoa que não trabalha com mercado de capitais e não tem muito tempo para acompanhar as cotações com freqüência poderá saber aproveitar melhores chances, comprando em baixa e vendendo em alta?

INVESTIDORES PROFISSIONAIS E AMADORES

Como já disse, não sou consultor financeiro, nem um expert em investimentos. Por isso, nas minhas economias, procuro simplificar a tarefa de acompanhamento do mercado.

Analistas profissionais buscam informações sobre centenas de empresas, estudam seus potenciais de crescimento a curto, médio e longo prazo, avaliam os balanços publicados e estão sempre bem informados sobre os acontecimentos dentro e fora do Brasil.

No meu caso, não disponho de tempo nem de conhecimento suficientes para ir tão a fundo. O que faço é ler, quando posso, as notícias nacionais e internacionais sobre política e economia, sem muita preocupação em entender como a queda de um governo na Europa, por exemplo, afetará meus rendimentos.

Por isso escolhi, há bastante tempo, apenas três tipos de investimentos, todos acessíveis a qualquer pessoa que tenha conta em algum banco. Acompanho o valor do índice IBOVESPA, a cotação do dólar e o panorama geral da economia (se há rumores de crise e quais os investimentos mais recomendados no momento).

Com as informações que tenho e com a análise que irei detalhar mais à frente, procuro decidir a melhor hora de comprar e vender.

Resolvi optar pela simplicidade dos fundos de investimento, mesmo que os sistemas de home-broker (instrumentos que permitem a compra e venda de ações diretamente pelo investidor, evitando os bancos como intermediários) me possibilitassem uma maior agilidade no processo de negociação de ações.

Assim, alterno meus investimentos entre fundos de ações atrelados ao IBOVESPA, que conseguem rendimentos muito próximos desse índice, fundos cambiais que possibilitam ganhar com as eventuais subidas do dólar e fundos de renda fixa que dão a tranqüilidade de poder contar com o dinheiro em caso de necessidade, além de serem um excelente porto seguro para deixar o capital enquanto espero uma situação mais favorável ao investimento em ações ou dólar.

Com as escolhas restritas a esses três tipos de investimento, basta acompanhar a evolução dos índices e ficar atento nos momentos próximos às mudanças que desejo fazer.

QUAL A HORA CERTA DE COMPRAR E DE VENDER?

Acho importante informar que costumo investir em fundos de risco (ações ou dólar) apenas uma parte das minhas economias, guardando em renda fixa o suficiente para me socorrer em caso de necessidade. Meus investimentos de risco são sempre feitos com uma parte do dinheiro que, se totalmente perdida, não me deixará em apuros. Isso é fundamental para que possamos evitar o pânico, não participando do “efeito de manada”, onde muitos acabam perdendo dinheiro por seguir a tendência geral de vender em baixa, para “não perder ainda mais”…

Dito isso, apresento a análise que costumo fazer, mantendo-a sempre que possível atualizada para que os novos valores me ajudem a decidir de forma mais acertada.

Como vimos, há uma certa lógica no caos quando olhamos para os índices das ações e para a cotação do dólar. Ambos apresentam uma linha de tendência que pode ser calculada em programas como o Excel ou o Calc permitindo a qualquer momento, avaliar o quanto acima ou abaixo dessa tendência está o valor de cada tipo de aplicação.

Para isso, elaborei um gráfico que permite acompanhar o IBOVESPA e o dólar, mostrando quanto, percentualmente, cada valor está acima ou abaixo da linha de tendência (exponencial, no caso da bolsa e linear, no caso do dólar).

Utilizo os dados de 30/06/1995 até hoje do IBOVESPA, obtidos no próprio site da BM&F, bem como os valores de cotação do dólar que podem ser encontrados em sites de finanças como o YAHOO finanças, dentre outros.

O gráfico a seguir mostra as informações de que preciso.

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Perceba que o índice IBOVESPA, em vermelho, que estava cerca de 62% acima da tendência para esse índice no início de 2000, iniciou uma queda com recuperações parciais temporárias, chegando a -55% na segunda metade de 2002, recuperando-se quase continuamente até alcançar uma valorização de mais de 50% em maio de 2008 e caindo bruscamente no final por causa da crise imobiliária americana e da expectativa de uma forte recessão.

Note a grande simetria em relação à linha de tendência, nesse gráfico representado pela horizontal de 0%. Na maior parte do gráfico, quando o dólar está acima dessa linha, a bolsa está abaixo e vice-versa. Quando as bolsas iniciam um movimento de queda, o dólar começa a subir, pelos motivos que já discutimos. O mesmo acontece quando há tendência de valorização da bolsa, provocando queda no dólar.

Assim, fico atento às informações do gráfico. Em linhas gerais, quando uma das linhas está abaixo do 0%, sua tendência é voltar para esse valor, subindo. Da mesma forma, quando uma linha está acima do 0%, sua tendência é descer.

Em meus investimentos, só compro quando vejo que o valor de determinado investimento está suficientemente abaixo de 0%, valendo a pena comprar e esperar a sua valorização. Seguindo essa lógica, quando vejo que meus investimentos estão perigosamente em alta, muito acima de 0% e que a outra linha está em baixa, aproveito para vender meus fundos e trocar de investimento, esperando por um novo ciclo de alta.

Vale dizer que procuro permanecer mais tempo nos investimentos com ações do que com dólar, por serem as ações um investimento verdadeiro, com tendência de crescimento exponencial, ao contrário do dólar, que tem tendência linear de quase estabilidade.

Quando sinto que estou próximo do limite que considero adequado para mudança (e não sou muito arrojado), elaboro outro gráfico que me dá uma visão mais detalhada do comportamento dos índices nos últimos 365 dias. Veja como este gráfico estava em agosto de 2012:

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Note que o dólar estava cerca de 9% acima da sua linha de tendência e que o índice IBOVESPA estava 30% menos valorizado que o esperado para agosto de 2012. Isso revela uma indicação para compra de ações, com expectativa de boa valorização em algum tempo (normalmente as baixas duram entre 1 e 3 anos).

RESULTADOS POSSÍVEIS X RESULTADOS REAIS

Nos últimos dez anos, eu apostei nessa combinação bolsa-dólar-renda fixa e não me arrependo. Citarei os principais movimentos que fiz nesse período, com o objetivo de mostrar que, mesmo não acertando os pontos ideais de compra e venda (na realidade isso é praticamente impossível), consegui aumentar bastante o retorno sobre o capital que investi.

Em dezembro de 1998, comprei cotas de um fundo de ações quando o IBOVESPA registrava 6.934 pontos. No final do ano seguinte, percebendo que o dólar estava em baixa, vendi a 16.377 pontos e comprei cotas de um fundo cambial a R$ 1,83.

Dois dias depois da minha venda das ações, elas tinham subido para 17.092 pontos e 19 dias depois, o IBOVESPA registrava 18.053 pontos. Resolvi, a partir de então, não pensar no que eu poderia ter feito e não fiz. Concentrei-me em esquecer o passado e concentrar-me no que eu deveria fazer no futuro.

De fato, o dólar subiu e no dia 3 de setembro de 2001, vendi as cotas do fundo cambial por R$ 2,56. Pouco após os atentados de 11 de setembro de 2001, as ações, que já vinham caindo, despencaram rapidamente e achei que aquele seria um bom momento para comprar. Com o IBOVESPA em 10.306 pontos, comprei cotas de um fundo de ações. Estava animado com o crescimento, que chegou a 14.471 pontos, mas o “risco Lula” fez com que o índice caísse, em outubro de 2002 a 8.371 pontos.

Ao contrário de muita gente na época, eu não retirei meu dinheiro das ações, principalmente porque o dólar estava extremamente valorizado e eu apostava em uma nova alta das ações, nem que tivesse que esperar.

Novamente estava contente em janeiro de 2004, com o IBOVESPA passando dos 24.000 pontos, mas o dólar estava muito alto ainda, a R$ 2,84, não valendo a pena trocar de investimento. Aguardei na bolsa e novamente ela caiu para menos de 18.000 pontos. Mantive minha persistência e somente em março de 2006 eu achei que as ações já tinham valorizado bastante e que valeria a pena tentar novamente o dólar. O IBOVESPA na data da venda era de 38.244 e o dólar estava a R$ 2,14. Dessa vez percebi que as ações continuaram a subir depois que vendi, então esperei por uma baixa, que veio em maio de 2006, vendi a R$ 2,32 e comprei novamente ações a 36.740 pontos.

Em 2008 senti que as ações estavam valorizadas demais. Todos falavam em investir na bolsa e eu, na contramão, vendi minhas ações em março, quando o IBOVESPA registrava 62.368 pontos. Não acreditava que as ações pudessem subir mais, nem ao menos se manter por muito tempo nesse patamar, muito acima da linha de tendência do gráfico que eu estava traçando. Mesmo assim, o dólar estava caindo e eu resolvi esperar um pouco na renda fixa, com cerca de 0,7% de juros ao mês. O IBOVESPA subiu para inacreditáveis 73.517 pontos, mas desde então não parou de cair, com a crise que iniciou nos Estados Unidos e se alastrou para o resto do mundo.

Somente no final de setembro de 2008 me senti mais seguro da posição a tomar e, vendo que o dólar estava subindo com a queda das bolsas, comprei a R$ 1,82, mesmo podendo ter comprado na época em que vendi as ações a R$ 1,69. No final de outubro de 2008 resolvi vender o fundo cambial a R$ 2,236 e no dia seguinte comprei cotas de um fundo de ações com o IBOVESPA em 35.069 pontos. Novamente vendi minhas ações no início de 2011 por 70.940 pontos. Como o dólar estava, no momento, apenas 7% abaixo da linha de tendência, resolvi aguardar em renda fixa uma definição do que fazer.

No momento em que escrevo esse artigo o índice está em cerca de 59.000 pontos e é provável que caia mais um pouco. Estou aguardando chegar ao patamar de 55.000 pontos (35% abaixo da linha de tendência) para comprar novamente ações, mas agora na forma do ETF BOVA11, que é negociado através de corretoras. A vantagem de se investir em um ETF é que não é necessário pagar taxa de corretagem a cada compra ou venda de ações individuais, além de seu valor acompanhar muito de perto a variação do Ibovespa.

Essa é a cronologia das decisões que tomei, e mesmo não sendo as mais acertadas, fariam com que alguém, investindo R$ 1.000,00 no final de 1998, chegasse a R$ 28.872,43 em outubro de 2008. Sei que se tivesse “acertado” mais, poderia ter aumentado muito o lucro dos meus investimentos, mas creio que, dentro das incertezas reais do mercado, fiz boas escolhas. Só para comparação, se outra pessoa tivesse investido os mesmos R$ 1.000,00 no final de 1998 em ações e não mudasse de investimento até hoje, teria acumulado R$ 10.517,00 em maio de 2008 e hoje teria R$ 5.057,54. Na renda fixa, o total não passaria de R$ 4.000,00.

CONCLUSÃO

Escrevi esse artigo, que acabou ficando muito maior do que eu previa, para tentar auxiliar aqueles que querem investir mas sentem-se inseguros por não conhecerem uma maneira de avaliar se um investimento está em alta (hora de vender) ou em baixa (hora de comprar).

Espero que aqueles que tiveram persistência para ler este artigo, tenham também muita paciência, perseverança e um pouco de sorte (que não faz mal nenhum) em seus investimentos.

Ressalto a importância de escolher um bom banco, com bases sólidas, para cuidar dos seus invetsimentos, pois de nada adianta ter altos lucros em poucos meses, se o banco não for forte o suficiente para suportar uma crise e acabar falindo, levando o seu dinheiro.

Tenho, também, que alertar que o que deu certo até o momento, nem sempre valerá para o futuro. Algumas vezes somos surpreendidos por planos econômicos, mudança da política monetária, dentre outras possíveis situações que podem, de um momento para outro, invalidar o que está escrito nesse artigo. Lembre-se da frase mais usada em prospectos de fundos de investimentos: “Rentabilidade passada não é garantia de lucros no futuro”.

Outra informação obrigatória para um texto como esse publicado na Internet é que o Brasil é extremamente diferente de outros países, possuindo sua própria política econômica, cambial, seus juros elevados, risco país que já foi bastante alto e outras inúmeras características que fazem com que os bons conselhos para o investidor daqui possam ser bem diferentes daqueles válidos para outros países. Portanto, se for aplicar alguma das técnicas que descrevi em investimentos fora do Brasil, seja cauteloso a ponto de verificar se as premissas adotadas aqui são verdadeiras nesse outro país.

Deixo, finalmente, registrado que pouco do que aqui escrevi é válido, se o investidor não se esforçar para fazer sobrar uma parte do que ganha, livrando-se de dívidas que cobram juros exorbitantes e passando a poupar parte do salário. Gastar menos do que se ganha é difícil, exige sacrifícios e planejamento, mas compensa muito no final!

Guilherme Marques – Engenheiro civil da COPEL – Companhia Paranaense de Energia.

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Catogories: Finanças

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