Guilherme Marques

Mais que opiniões, conteúdo embasado.

Educação: E o nível óóó…

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Quando eu era criança e reclamava de algo na escola, meu pai me dizia: “Nunca discuta com o professor! Ele tem sempre razão!”. Então, para ter sempre razão, tornei-me professor…

O que eu não previa era que o respeito pelos “mestres” havia desaparecido com o passar dos anos! Aquele que antes era uma espécie de “sabe tudo” havia se tornado um “cara” que só estava dando aulas porque não era capaz de fazer mais nada na vida. Era esta a visão que muitos alunos tinham da profissão que eu havia escolhido.

E essa noção distorcida da carreira que segui por mais de quinze anos foi gradativamente se tornando o pensamento da maioria, infelizmente. Isso levava a problemas de indisciplina, questionamentos sobre a validade do que estava sendo ensinado, desinteresse por um bom desempenho escolar, dentre outros problemas…

É claro que havia exceções, para as quais, felizmente, nós professores, dirigíamos nossas expectativas. Mas tínhamos que dar atenção a todos e procurar resgatar nos mais rebeldes a alegria de aprender. Tivemos que nos adaptar, procurando deixar as aulas mais atraentes, alegres, mas sem perder o foco do ensino. Essa é uma tarefa cada vez mais difícil para os professores de hoje.

Outro problema que testemunhei nos meus anos de magistério foi a gradual diminuição da capacidade dos alunos entenderem os conteúdos mais complexos. No início da minha carreira, discutia tópicos e resolvia exercícios em sala que quinze anos depois não conseguia mais resolver. Simplesmente faltava aos alunos a base e o raciocínio necessários para tal. Paulatinamente, fui obrigado a reduzir o nível das aulas e dos problemas apresentados. O que será que levou o ensino a regredir ao invés de progredir?

Muitas são as causas possíveis e pessoalmente acredito numa combinação dos seguintes fatores:

  • deterioração do ensino publico, pressionando o nível total da educação para baixo:

    Meu pai estudou no Colégio Estadual do Paraná, escola de referência em que estudaram muitos dos maiores profissionais de hoje. Havia uma busca contínua por aperfeiçoamento dos professores e os alunos eram exigidos à altura. Os professores eram respeitados e em casa os jovens recebiam a parte da educação que cabe às famílias ensinar.
    Hoje vemos muitos colégios públicos que aplicam a “progressão continuada”, na qual os alunos passam de ano mesmo sem o aproveitamento necessário para tanto. Há diversos casos de desrespeito e agressão a professores. Há cotas nas universidades e provas especiais para os alunos de escolas públicas, como a Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas, prova bem mais simples que a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM), tradicional e difícil exame para destacar os talentos na área.

  • desvalorização do magistério, principalmente do ensino fundamental:

    A história recente mostra que países que levaram a sério a educação conseguiram mudar seu rumo e tornaram-se grandes exportadores de tecnologia. A Coréia do Sul, por exemplo, chegou a investir 12% do PIB em educação e passou de um país rural para uma das maiores nações em desenvolvimento de tecnologia de ponta. O Brasil, no final de junho de 2012, aprovou no Congresso o percentual de 10% do PIB a ser destinado para a educação, mas este percentual deverá ser atingido somente em 2023! E pior, não se sabe de onde virão os recursos a serem aplicados para atingir os 10% do PIB. Por isso, não há qualquer garantia de que isso venha realmente a acontecer, ainda mais se contabilizarmos as mudanças de governo que teremos até lá.
    Falando de salário, os professores de ensino fundamental da Suíça ganham o equivalente a R$ 5.500,00 por mês, quase 7 vezes mais que a média dos professores das mesmas séries no Brasil (dados de 2010). O Uruguai e a Argentina pagam o dobro do que paga o Brasil para os professores do ensino fundamental. E posso afirmar que os principais problemas que tive no ensino médio foram decorrentes de um ensino fundamental de qualidade sofrível.
    Com baixa remuneração fica difícil atrair os melhores profissionais para a educação, principalmente nas séries iniciais, talvez as mais importantes! Defendo inclusive a tese de que os professores do ensino fundamental deveriam ganhar mais que os do ensino médio, que por sua vez deveriam ter melhores salários do que os das universidades. Quanto mais avança um aluno em seus estudos, mais capacidade de absorver conhecimentos de forma auto-didata ele desenvolve. Se tivermos excelentes professores nas primeiras séries, as demais fluiriam de forma mais tranquila, mesmo com profissionais menos capacitados. O próprio aluno cobraria dos professores um conteúdo mais abrangente e útil, não lhe faltando a base para compreendê-lo.

  • inexistência de políticas públicas de longo prazo para a educação:

    Quando vemos políticas de educação que deram certo em outros países, fica claro que as coisas não mudam em 4 ou 8 anos. São necessários 20, 30 anos de esforços sérios, constantes e muito investimento. Por isso é tão difícil falar de uma mudança na educação brasileira. A cada alteração de governo, os dirigentes ligados à educação mudam e os novos passam a agir em outra direção, não levando adiante os progressos dos primeiros. Faltam dispositivos que obriguem a manutenção das diretrizes e digo mais, falta um rumo claro para que os objetivos sejam atingidos. Enquanto tivermos esforços pulverizados e poucos recursos, nada melhorará.

  • mudança no perfil familiar e terceirização da educação:

    Hoje, pela alteração da própria estrutura de renda familiar, é cada vez mais comum as mães terem que trabalhar assim que seus filhos atingem 4 ou 6 meses de idade. Por isso, as creches e escolas estão assumindo papéis que antes eram desempenhados pelos pais: o ensino de valores e a formação psicológica da criança. Antes, a escola cobrava dos pais se o aluno não tinha respeito pelos professores, não se relacionava bem com os colegas ou tomava para si algo que não lhe pertencia. Hoje, muitos pais culpam a escola quando os filhos fazem malcriações, os desrespeitam ou fazem algo errado. É a terceirização da educação dos filhos, que vemos cada vez com mais frequência nos lares de hoje. Não, a escola não dá conta de educar e ensinar ao mesmo tempo. A educação é tarefa dos pais, que devem analisar se terão ou não tempo de fazê-lo antes de decidirem ter filhos. Por ser tão importante a fase dos primeiros anos na formação do caráter da criança é que muitos países estão revendo suas políticas de licença maternidade e paternidade. Em alguns, como na Alemanha e no Japão, a mãe tem licença de um ano e os pais, nos dois anos seguintes, os pais podem revezar em casa, desde que um deles esteja trabalhando. Assim, pelo menos um dois pais está sempre cuidando do ensino de princípios básicos aos seus filhos.

  • proliferação de faculdades particulares e sistema de cotas:

    Quando prestei o vestibular, havia poucas faculdades e muita concorrência para nelas entrar. Isso fazia com que estudássemos muito se quiséssemos fazer um bom curso superior. Não acho que a abertura de diversas outras faculdades seja ruim, o que discuto é que com o excesso de oferta no ensino superior a seleção dos candidatos praticamente inexiste. Assim, entram nas universidades candidatos que têm pouca ou nenhuma condição de acompanhar um bom curso. O resultado é a diminuição do nível de ensino para que a grande maioria não seja reprovada. Assim, péssimos profissionais inundam o mercado e temos serviços com cada vez menos qualidade. Será mesmo que queremos esses médicos, engenheiros, professores e vários outros profissionais responsáveis pela nossas vidas?
    Como professor durante muitos anos sei que se o nível da maioria da turma é baixo não há como ensinar conteúdos de forma mais aprofundada e exigir dos alunos que os compreendam. Assim, antes de facilitar o acesso às universidades, o ensino fundamental e médio deveria passar por uma ampla reforma para capacitar esse número maior de alunos que entrarão no ensino superior.
    Da mesma forma, a lei de cotas nas universidades públicas incorre nesse erro. Não basta permitir que pessoas com baixa renda, alunos de escolas públicas, negros, pardos e indígenas entrem nas universidades, deve-se propiciar a eles e a todos uma educação fundamental capaz de fazer com que eles entrem por mérito. Assim, poderão fazer os cursos em condições de real igualdade com os demais, não sendo cobrados em provas por conhecimentos que não lhes foi propiciado. Ou será que teremos cotas nos exames finais das faculdades também?

Concluindo, acredito que o Brasil não passará a ser um país desenvolvido se a nossa educação continuar a ser tratada da forma como está sendo. Hoje, mesmo com poucas indústrias de tecnologia de ponta no país, há uma enorme procura por profissionais realmente capacitados. Muitas vagas permanecem meses em aberto por falta de qualificação dos candidatos. Por outro lado, faltam postos de trabalho em tarefas que não exigem muito conhecimento.

O nosso futuro depende, fundamentalmente, da vontade política de alterar o estado atual do nosso ensino. Ou colocamos nossos melhores profissionais para ensinar, valorizando o papel do professor e estabelecendo metas claras que deveremos alcançar ou não teremos capacidade para nos desenvolvermos concorrendo com países que o façam.

Observação: as opiniões aqui expressadas são pessoais e como tal podem representar uma visão equivocada ou parcial da educação no Brasil.

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